Luca Moreira

Luca Moreira faz releitura da carreira de Babi Xavier em entrevista

Nascida em Niterói, Babi Xavier começou a vendar cosméticos na adolescência para as amigas e dar aulas de inglês para crianças, mas sonhava em um dia ser apresentadora. Aos 14 anos, já fazia parte do elenco de apoio do programa Milk Shake apresentado por Angélica, na extinta Rede Manchete. Cursou Letras na UFF e estudou Teatro no Diretório Central dos Estudantes com a atriz Françoise Forton e com o diretor Delson Antunes. Ao fim do curso, Babi e sua turma formanda
apresentaram, no teatro da UFF, a peça clássica “Nossa Cidade”.

Começou a trabalhar como modelo no Rio de Janeiro e em São Paulo, onde participou de muitos comerciais, desfiles de moda e clipes musicais. Além disso, passou cursar interpretação para a TV nas escolas Studio Escola de Atores, Oficina de Atores da Globo, Artes Cênicas, Casa da Gávea e Casa das Artes.

Com muitos anos de bagagem e conhecimento, hoje ela se junta a nós para uma incrível volta no tempo em sua jornada.

Quando sua jornada artística teve início?

A minha jornada artística teve início quando, ainda na minha cidade natal, Niterói, Rio de Janeiro, estudei teatro com a Françoise Forton e o Delson Antunes, com a assistência de Claudio Boeckel, hoje, um grande diretor. Foi em 1992 e 1993, quando fiz meus primeiros desfiles de moda, também na cidade. O percurso foi me filiar a uma agência de modelos, na época, a Class Models, no bairro do Flamengo, percorrer os castings do Rio de Janeiro, e depois, de São Paulo. A caminhada como atriz, os estudos e oportunidades, foram concomitantes, nesse período. Fui modelo profissional por 4 anos e fiz muitos comerciais para a tv, publicidades e videoclipes, além de catálogos de moda e desfiles. Depois, segui somente como atriz e comecei o meu caminho como apresentadora, comunicadora, entrevistadora. Passaram-se 25 anos. No Google não tem nem a terça parte do que eu já fiz! (risos)

Como era participar do programa “Milk Shake” com Angélica?

Participar como platéia e ter participações pontuais de palco no programa Milk Shake, na Rede Manchete, com a Angélica, impulsionou-me bastante rumo a o que eu vi que poderia e queria fazer. A minha mãe me levava, depois da minha aula na escola, e voltávamos para casa tarde da noite, num tempo em que isso ainda era possível, sem a violência que nos atravessa, hoje. Usei todas as minhas horas de disponibilidade das gravações para observar as diretrizes, o ritmo, o ambiente, os objetivos e desafios que Angélica e toda a equipe tinham. Levei para a vida.

O que a fez escolher o curso de letras como sua formação?

Quando comecei a cursar Letras, o que eu queria era continuar os meus estudos na língua inglesa. Eu já era formada pelo meu curso, em Niterói, o IBA(Instituto Brasil América) e tinha diploma de Cambridge, mas queria mais e não tinha dinheiro para estudar fora do país. Entrar na UFF, em Letras, me pareceu o caminho possível. Só que, nesse mesmo período, em 1993, eu comecei a modelar e tive que priorizar a profissão de modelo. Não consegui terminar o curso, mas consegui ir longe na carreira artística, que, compreendo, muito desistem por motivos legítimos.

Como foi seu primeiro trabalho como modelo?

Um anúncio de revista que me marcou, pois eu era a modelo solo dele, foi para a marca fashion Prefab, no Rio de Janeiro. Pude me soltar, ousar e trazer o teatro para o universo da foto. Outro, que marcou, foi a campanha publicitária do sutiã da Duloren que era a versão nossa do Wonderbra. Foi ótima para a minha carreira.

Qual foi a sensação de ter sido selecionada pra sua primeira novela em 1997?

Foi sensacional estudar um texto, fazer um teste de vídeo, aguardar e ser chamada! É uma vitória! Hoje, a quantidade da concorrência e a variedade de sua origem é muito maior, portanto é mais complexo, o processo. É preciso, somente, “passar o texto com verdade” o que não preconiza a escola dramatúrgica prévia. Deve ser, também, porque temos muito mais gente no mundo né? (risos)

Na verdade, a minha primeira novela foi em 1995/1996, na Bandeirantes, e se chamava Perdidos de Amor, da Ana Maria Moretzsohn, produzida pela TV Plus, no Rio de Janeiro. Lá , tive a oportunidade de contracenar com Edney Giovenazzi e a Sonia Clara, entre outros talentos. Eu interpretava a Ivea Nogueira Lima, uma das amigas ricas da protagonista, Maria Luísa (Christine Fernandes). Depois, é que me apresentei para fazer Por Amor, do Manoel Carlos, na Rede Globo.

 

 

Entre apresentar e atuar, qual dos lados você prefere?

Eu tenho 3 lados, o que canta e dança, o que apresenta, comunica e entrevista e o que representa. Cada trabalho é especial, pois é a minha escolha e prioridade da vez. O que mais exercitei, por 8 anos seguidos, em diversos lugares, foi o lado de apresentadora. Nesses 8 anos, foi como fazer a graduação, o mestrado e o doutorado como prática direta no mercado.rs Vivia a profissão 24 horas por dia. Tive a oportunidade de conhecer e trabalhar com quem começou a TV, diretores, atores, produtores. Um tesouro.

Sente falta da sua época na MTV?

Não sinto falta propriamente da época, mas da liberdade de experimentação que a MTV Brasil nos dispunha. Aprendi bastante! Ali, nas reuniões de pauta, eu tinha voz por direito, e não por imposição. Era especial poder viver isso. Apresentar um programa que falava abertamente das questões sexuais para o grande público foi um desafio enorme a ser vencido todos os dias! E o preconceito dos outros e meus, próprios, a serem desmistificados? E as ideias erradas que a imprensa fazia sobre o que seria o programa? Passei muitas horas ao telefone, em entrevistas, explicando o que o programa não era e insistindo que os repórteres do Brasil assistissem para conhecer. Foi uma luta e presente para o meu desenvolvimento.

Depois de se mudar para São Paulo em 2002, o que a fez retomar a Niterói?

Eu voltei para me reencontrar naquelas ruas em que cresci. Como disse E. Husserl, filósofo fenomenológico do fim do século XIX, para “voltar às coisas, mesmas” . Morei em SP de 2000 a 2003. Quando voltei para o Rio de Janeiro, antes de ter a minha filha e voltar a residir em Niterói, fiz morada no bairro da Barra da Tijuca, por muitos anos, para estar perto das emissoras em que trabalhei depois do SBT: a TV SKY NET SAT(2004), onde já havia trabalhado em 1998, a Rede Globo(2005/6), também, para voltar a atuar na novela Bang Bang, do escritor Mario Prata , e participar da 3ª edição do Dança com os Famosos, lá no programa do Fausto, e a Rede Record de Televisão, onde renovei contratos como atriz por 10 anos(2006 -2016) e participei de muitas boas produções. As últimas , José do Egito e Os Dez Mandamentos, estão sendo reexibidas atualmente na emissora.

Como foi apresentar programas da Disney em Orlando para o Teleton?

“Natal 2000″e “Som Ao Sol” foram as primeiras experiências de trabalhar fora do país, com diferentes recursos, sem o teleprompter que tanto nos auxilia a ser mais ágeis, porém, foi o trouxe de volta a minha estrada de atriz à tona para memorizar os textos(que eu queria sempre reproduzir na íntegra, ufa!) e dizê-los no meu tempo, nas gravações todas externas, ou seja, com o mundo acontecendo apesar de você, sem a proteção do estúdio. Mais uma vez, desafio lançado e vencido. Trabalhar em tv para causas como a do Teleton sempre me mobilizaram. Eu entendi que, na vida, haviam desafios e dificuldades bem distintos dos que eu passava naquele momento, e que era para eles que eu devia olhar.

O fato de ter sido a primeira mulher escolhida para apresentar o reality show “Ilha da Sedução”, lhe deixa orgulhosa?

Foi uma surpresa ser chamada para , pela primeira vez, apresentar um Reality Show, com equipes de três países, Argentina, Estados Unidos e Inglaterra, com profissionais que eu ainda não conhecia e tudo fora do país. Ser a primeira mulher quebrou paradigmas, é certo, e penso que, o que contou para esa escolha foi a minha experiência de tratar de comportamento com o jovem na MTV Brasil e no Programa Livre, no SBT. A produção foi com a Rede FOX internacional e foi a primeira vez que trabalhei com um canal a cabo, fora da MTV e TV SKY.

Foram dias corridos, árduos, passados na República Dominicana, que tem uma cultura diferente da nossa, em que eu só pensava em acompanhar o ritmo do “ao vivo”, mesmo que estivesse fazendo algo que seria exibido somente depois de concluído. Eu era muito menina e me assustava com isso. Sobrevivi. (risos)

Qual foi sua inspiração para escrever o livro “Um Papo Aberto Entre a Gente”?

Tive sempre vontade de escrever uma coluna, um ensaio, um livro, um diário que fosse para só eu mesma ler, (risos), e o convite da Editora Gente para que eu pudesse expor as minhas ideias e experiências da época veio como algo muito bom. Eu tive prazo para terminar, para que o livro já chegasse à Bienal mais próxima naquele ano, e esse foi um desafio! Na minha apresentação, que eu nem sabia que ia fazer, gaguejei, enrolei-me nos pensamentos e me lembro de como nervosa eu estava! Passei mal de nervoso, aquele dia! Pensava: “Nossa, e se eles não acharem interessante o suficiente?” Ter as minhas ideias publicamente analisadas, sem (o imaginário) controle me assustava, mas eu sabia que estava escrevendo para um público que não tinha a conversa aberta e disponível em casa e, com o tempo, a minha maturidade foi abrandando tudo isso, também, ainda bem. (risos)

Como foi a experiência com a gravação do CD “Do Jeito Que eu Quero”? Voltaria a cantar?

Fazer o CD me ensinou muitas coisas. Foi uma empreitada séria quanto ao tempo de execução porque eu ainda gravava diariamente o Programa Livre, no SBT, e só tinha os finais de semana para exercitar e registrar a voz nos estúdios de SP e do Rio. Foi um processo, claro, cansativo. Correr atrás de ideias de letras e melodias e parcerias foi prazeroso, eu sabia o que queria e, por causa do que eu acreditava, procurei me colocar e manter algumas posições. Cantar “O Que Será?” em dueto com o Chico Buarque foi uma consequência linda disso. E eu também vi nascer a canção “Não Quero Lembrar”, com letra de Célio Mendes e música de Nuno Mindelis, que foi feita a partir de uma história de amor que vivi. Eu pude acompanhar todo o seu processo, a sua concepção em estúdio e criei os recursos vocais que achei mais verdadeiros, à época . Fiquei bem feliz com o resultado desse Blues e tive a oportunidade de incluí-lo e cantá-lo na peça, um drama, Guerra Doce, de Edu Porto, todas as noites, em 2006!

Como foi trabalhar com o diretor Marcus Andrade em 2004?

Trabalhar com o Marcus Andrade em seu primeiro longa-metragem de arte, “K”, foi uma grande experiência ao lado do colega curitibano Rodrigo Ferrarini. Um filme com outro ritmo, outra narrativa, em preto e branco, com personagens sombrios! Até a minha primeira , e única, cena de sexo durante toda a carreira, foi maravilhosamente estranha, não óbvia, misteriosa. Não teve nudez, e nem precisava. Muito interessante!

Antes de participar do “Dança dos Famosos”, já tinha tido alguma experiência com dança?

Antes do Dança Com Os Famosos, só dançava em casa e nas baladinhas noturnas, mesmo! O Dança foi um acontecimento incrível de superação de limites na minha vida! Comecei, nesse ano de 2018, a fazer aulas de ballet e sapateado com aquela boa sensação, e de olho nas audições dos próximos musicais, que, um dia, quero participar! Estou ganhando bastante em qualidade de vida por ter começado as aulas! Jamais devemos deixar de começar a aprender a dançar! Dança é VIDA!

Como foram os estudos para desenvolver a personagem Juli em “Os Mutantes”?

Para compor a antagonista Juli Di Trevi da trama da Trilogia Os Mutantes, tive alguns passos, como marcar de ir conversar várias vezes com o autor, Tiago Santiago, com o diretor Alexandre Avancini, com a atriz que dividiu o papel comigo, interpretando-a em outra fase de vida, na trama, a mestra Ítala Nandi. Também, tive permissão médica para assistir de perto ao parto da minha sobrinha e afilhada Larissa, que hoje tem 9 anos, para entender a fixação com bebês que tinha a minha personagem, uma geneticista ousada e….de outro mundo! Sim, reptiliana, extraterrestre. Por esse lado, comprei uma série de dvd dos anos oitenta que mostrava a vida dos reptilianos, que foi muito legal de assistir! Foram 6 meses de gravações no meu cenário, no estúdio, e eu fiquei craque em textos longos! Adorei trabalhar com ação e ficção científica e lamento que esse estilo não seja tão explorado aqui no Brasil. Cenas de lutas coreografadas, de manejo com armas, de perseguições e muita ação estão no meu sangue (risos). E foi demais explodir uma aranha gigante dentro de uma caverna! (risos)

Como surgiu o convite para apresentar o LABRFF?

Apresentei o LABRFF (Los Angeles Brazilian Film Festival) por 3 vezes a convite da fundadora do festival, a jornalista e produtora Meire Fernandez, que é brasileira, do Recife, e mora Los Angeles. Ela ficou sabendo que eu estava pensando em ir prestigiar o festival por estar participando, como atriz, no curtametragem falado em inglês The Meeting, ao lado de Luciano Szafir e Igor Rodriguez, com produção de Roberto Jabor e direção de Ricardo Veiga, brasileiro radicado em LA, também. O filme foi exibido no festival. Essa foi a primeira vez que trabalhei no tapete vermelho, em português e inglês, com profissionais do cinema nacional e internacional.

Quais foram os maiores desafios de gravar a minissérie “José do Egito”?

Fazer a personagem Elisa, a esposa de Judá, em José do Egito, foi dinâmico e fluido porque tive a generosidade do parceiro Vitor Hugo, um grande companheiro de jornada cênica. Vitor vai tão profundamente em seus estudos, que nos leva junto! A desconstrução da mulher moderna e o retorno à mulher dos tempos antigos do Velho Testamento foi algo que percebi já estar almejando a muito tempo. Sei que tenho uma imagem feminina sempre bem cuidada e atualizada como apresentadora, mas, como atriz, posso ser várias pessoas, ter vários estilos, viver várias possibilidades. Elisa era uma mãe dedicada, uma esposa amiga, companheira, que jogava de igual para igual com o marido pelas vias da confiança, da família e do amor, sem perder a concepção da época. Foi a primeira vez que eu morri em cena, também. Uma dor aprendida com a noção da finitude.

O que a maternidade mudou na sua vida?

Mudou as minhas prioridades, o meu tempo de fazer as coisas, fez-me questionar o país, o estado de ser uma mulher nessa cultura ocidental e patricarcal hipermoderna. Fez-me resistir às modulações da vida cotidiana, do ordinário, mas ir em busca do que é simples, desacelerado, do possível descomplicado, o contracorrente, a força que a gente tem e não sabe, as legitimidades das lutas, as desconstruções das crenças e esquemas a que somos apresentados e que carregamos por tanto tempo. Estou fazendo todos os movimentos em direção a mudar o que é automático, fechado em si. Ando fugindo com força da frase conhecida da obra O Auto da Compadecida: “Não sei, só sei que é assim.”

Quero vê-la crescer, e quero aprender com ela, a minha Cinthia.

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O que está escrito não é sacramentado, nem nos livros, ou nos jornais, nem na internet. Sagrada é a Ética em seus intermináveis debates sobre como podemos viver para o bem. Leia mais, muito mais, pois é questão de hábito, de praticar. Você é muito capaz! Questione com embasamento, dando-se a chance de se informar e busque os vários ângulos sobre as questões. Busque exercitar o pensamento, ouça-se com amor e atenção, respeite a sua percepção e o seu corpo. Busque o outro para caminhar junto, como amigo, como amor. Quebre o Individualismo, pense fora das linhas rígidas e seja grupo, vivência, e não só colecione experiências até 1 minuto do video do Instagram. Não sinta raiva dos discursos do FB, não entre em confrontos para se impor, ridicularizando o que é caro para o outro. O que receberá em troca? Tempo. O tempo é o que fazemos dele e como o percebemos. O tempo é, hoje, o maior dos tesouros. O que você tem feito do tempo que lhe foi dado? Saiba de onde vieram as primeiras estruturas do pensar e identifique o que te orienta, o que te move, hoje. Para isso, estude filosofia, política, religião. Busque o seu norte e localize-se no mundo. O que isso trará a você? Uma paz enorme.

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